Em 1991, torna-se o editor mais jovem do país no Jornal Folha de Boa Vista.

Em 1991, torna-se o editor mais jovem do país no Jornal Folha de Boa Vista.

 

 

 

 

 

 

Empresa: Jornal Folha de Boa Vista
Cargo: Editor
Início: 01 de março de 1991 – Término: 30 de junho de 1998

 

Com o certificado na mão, Feutmann Gondim foi à procura da sua primeira oportunidade. Não demorou muito tempo e o Jornal Folha de Boa Vista lhe concedeu uma chance. Entrou como digitador, aos 16 anos. Em virtude da quantidade de textos que precisava digitar para que o jornal fosse levado às bancas de Boa Vista, Feutmann Gondim passou a manifestar seu interesse em mudar de ramo dentro da redação. A facilidade que tinha para escrever, o fez perceber que era capaz de produzir as reportagens, que na época apenas copiava das laudas imprensas para o computador. Foi, então, que decidiu, não queria ser mais apenas digitador, queria se tornar repórter.
No dia 26 de maio de 1990, constando ainda como digitador no expediente do Jornal, Feutmann Gondim teve o seu primeiro artigo publicado, com o título "O mundo que Nós Queremos". Apesar da pouca idade, o jovem jornalista demonstrou que já possuía uma visão crítica não só da sua realidade, mas também do Brasil e do mundo. O texto inicia desta forma: "No princípio o homem atritou duas pedras, queimou os dedos e dominou o fogo. Anos depois, enriqueceu urânio e descobriu a maior fonte de energia possível, capaz de tornar os mais idealistas sonhos de desenvolvimento".
Nos meses seguintes, Feutmann Gondim passou a escrever reportagens para o jornal. Entre a publicação do seu primeiro artigo e a posse como editor chefe do jornal, foram apenas dez meses. Com 18 anos, recém completados no dia 25 de fevereiro, Feutmann Gondim assumiu, no dia 01 de março de 1991, o cargo de editor chefe, tornando-se o mais jovem jornalista a assumir a editoria de um jornal brasileiro.
Foram oito anos à frente da editoria do jornal e da editoria de política. Esta função Feutmann deixou apenas quando foi convidado a assumir, no dia 16 de junho de 1998, o cargo de coordenador adjunto da Comunicação Social do Governo do Estado, na época, Neudo Campos ainda estava em seu primeiro mandato. Mesmo afastado oficialmente do Jornal Folha de Boa Vista, Feutmann jamais se desligou da redação. Sempre que podia, visitava a redação para rever amigos, em especial Getúlio Cruz, com quem tinha uma relação de pai e filho, além da colunista Shirley Rodrigues, que considerava mais que uma amiga, uma irmã.

 


 

 

Feutmann, um dos melhores jornalistas
que já passaram pela redação de jornais no estado.

 

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Getúlio Cruz*

 

 

Ainda imberbe, recém saído da adolescência, um belo dia, Feutmann Gondim apareceu aqui na Folha. Não veio trazido por ninguém e muito menos trouxe apadrinhamento, o que seria natural pelas práticas locais. Disse apenas que gostaria de ser jornalista.
Naqueles idos, eram poucos os jornalistas com formação universitária e nossa redação tentava preencher essa lacuna formando na faina diária nossos futuros profissionais. A única exigência era que os candidatos/candidatas soubessem um mínimo de redação e demonstrassem vontade de seguir na carreira. Muitos/muitas, em pouco tempo, demonstravam não possuírem aquelas mínimas aptidões que se espera de um profissional que tem a responsabilidade de dar formato correto às notícias produzidas e consumidas pela sociedade. Dele/dela se exige entre outras coisas a honestidade de propósito, o compromisso com a verdade, a coragem de desagradar, especialmente os poderosos, e, especialmente, o estudo permanente dos mais variados assuntos. Quem não tinha "jeito" para a coisa logo pedia para sair.
Com Feutmann, tudo foi muito rápido. Perguntado se já teria experiência em algum setor do jornal, ele foi muito sincero ao responder negativamente. Mas, reiterou, com muita força interior, que seu grande sonho seria aprender a fazer jornalismo. Foi o que fez aqui em nossa redação. Foi mais longe, em pouco tempo, restou transformado num dos melhores jornalistas que já passaram pela redação de jornais no estado.
E começou de baixo. Naquele tempo, a internet era ainda uma miragem e recebíamos as notícias nacionais/internacionais através do velho e útil telex. Eram centenas de metros de notícias que, encaminhadas ao editor/editora, eram selecionadas e cortadas com tesoura. Isso mesmo, tesoura! Dali, as tiras selecionadas eram mandadas aos digitadores, que dedilhavam num teclado dos velhos editores de texto, para serem posteriormente grudadas numa folha de papel, que, fotografada e revelada, transformava-se em fotolito.
As notícias locais eram coletadas pelos jornalistas, que lhes davam forma, utilizando as ainda imprescindíveis máquinas de datilografar. Após, vistas pelo editor/editora, as matérias seguiam o mesmo destino daquelas retiradas do telex.
Feutmann começou na Folha exatamente como digitador, ainda sem prática. Em muito pouco tempo, digitava com rapidez e começava, ele próprio, a fazer a revisão ortográfica, de conteúdo e de concordância. Desde cedo, lia muito. Não dava sossego aos livros e, aos poucos, foi ganhando a erudição necessária ao bom jornalista.
O rápido aprendizado como digitador, a erudição, que ganhara rapidamente, e o caráter reto e confiável, os levaram à condição de repórter. Ele saiu às ruas, buscando notícias, ampliando o círculo de conhecimento, fazendo-se um profissional acreditado e respeitado, o que lhe valeu, em tempo recorde, a promoção para editor. Primeiro de política local, uma atividade que exige andar na areia movediça do mundo criado pelos políticos. Como sempre, Feutmann saiu vitorioso da empreitada e galgou, antes de completar 20 anos, o posto de editor geral da Folha, com certeza um dos mais jovens a ocupar a função na imprensa brasileira.
Obstinado e estudioso, Feutmann alargou seus horizontes profissionais. Logo manifestou o desejo de voos mais altos, sempre estimulado pelos que conheciam seu imenso talento. Fez o curso de jornalismo da Universidade Federal de Roraima, obteve o bacharelado e viajou para a Europa, onde realizou curso de pós-graduação em Portugal. Dali, decidiu ficar em Brasília, como assessor de comunicação de ministérios e de parlamentares, inclusive da senadora Ângela Portela, cargo que exerceu até a prematura morte.
Apesar de afastado profissionalmente da Folha, Feutmann nunca perdeu os laços de amizade com seus antigos companheiros. Foi sempre um amigo que jamais aceitou que falassem mal do jornal e de seus dirigentes. Respondia com vigor e coragem, sem sequer nos consultar, a todos os ataques que o poder local financiava para ver destruída a Folha. Considerava a minha família uma extensão da sua, nunca deixava de visitar nossa casa e o jornal quando estava em Boa Vista. Chamava carinhosamente a Nazaré de tia, e o tratávamos como um ente muito querido e familiar.
Fiel às origens, Feutmann nunca escondeu o desejo de um dia morar no Tepequém, onde passou a infância e seus pais fincaram raízes de respeito e carinho. Ainda conseguiu juntar um pouquinho de suas poupanças com as dos irmãos e iniciou o embrião de uma pousada, sonho acalentado ao longo de sua breve, mas profícua, existência. Poucos dias antes de falecer, esteve em meu escritório, como sempre fazia ao vir a Roraima, e não falou noutra coisa senão no projeto que estava realizando com os irmãos e reafirmou o sonho de voltar a seu Roraima, especificamente, ao Tepequém de sua infância.

 

*Getúlio Cruz, Economista, Prof. Universitário, Diretor do Grupo Folha, Mestre e Doutorando em Ciências Políticas.

 

 

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