Ter opiniões é estar vendido a si mesmo...

Ter opiniões é estar vendido a si mesmo. Não ter opiniões é existir. Ter todas as opiniões é ser poeta. Fernando Pessoa

 

 

 

 

 

 

Feutmann Gondim foi um homem que não se apegou a coisas terrenas; vivia a vida intensamente. Procurava realizar todos os seus sonhos.
Era admirador da arte, da cultura, da literatura, do meio ambiente e se envolvia como ninguém nas questões políticas do Estado.

 

 

À memoria viva de Feut, com muito carinho.

 

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Jaider Esbell*

 

Ele flui!
Cá, em nossa pequenez, o idealizamos.
Feutmann é, mas, para nós, não basta.
Há um vácuo inconsentido.
Um homem que viu e viveu o que o resto de nós jamais alcançará.

Mergulhou em águas profundas numa procura perdida pelo limite inatingível. Buscava em si, quando o buscado poderia estar no outro. Qual o outro? Qual seria o certo, o bendito, o escolhido?
O menino nasceu nas montanhas. Foi concebido no alto, conviveu com deuses disfarçados de mortais, cresceu entre eles e logo se foi. Nas manhãs, logo nas primeiras horas, antes que alguém desse por sua ausência, punha suas asas de anjo e rodeava o paraíso num voo rasante. Depois, chegava, mais vivo, alimentado; por hora, saciado.
É na solidão que nasce a poesia; no encontro, ela se manifesta. Bem antes de todos os livros escritos, dos maiores amores possíveis, bem antes de tudo isso, um menino estava a mirar o horizonte. Assim, tudo que nos parecia encantado, para ele, era tão comum, tão íntimo e tão querido como um brinquedo surrado, deixado de lado, mas mantido ao alcance para a hora exata. Assim, foi ele, desmistificando as dunas de um deserto vivo. Vivendo em tempos sempre presentes, bebendo a água recém minada das fontes frescas.
Nascido para encantar, tirar do eixo, varrer seu chão e, depois, fazer flutuar. Certeiro, indo na mais remota memória, arrepiando sem jamais entediar. Banhado nas águas das chuvas tempestuosas trazidas com as monções. Em segredo, decantava toda essa violência e servia o banquete da mansidão. Tudo lhe era muito grato. Se a ele emprestasse seus olhos, juntos, olhariam o infinito, que mostrava na ponta dos dedos.
Recusou-se a ir ao encontro do desagravo, mantendo a nobreza e a refinada elegância. O silêncio nunca foi um refúgio; o dava aos merecidos. Punha no colo, como um pai de primogênito, ao mesmo tempo que empurrava no penhasco, como fazem as águias com seus rebentos. Nunca olhava para baixo ou para trás. Esperava que os ventos lhe trouxessem de volta; e sempre lhe traziam, como um pacto feito e selado. No meio do esperar, era da poesia que se alimentava. Ali, se fartava, deixando escapar para todos, mesmo que estes pensassem ser migalhas.
A poesia é mais morte do que vida; a máxima inversão dos sentimentos. Se vou, é porque já sei o caminho da volta, ou achas que há alguma ação sem que haja o seu efeito contrário? Queres uma sensação diferente? Uma hora única, só nossa? Então, feche os olhos. Deixe-me por uma fruta fresca em sua boca, depois, apertar uns botões, precipitando o desabrochar dessa flor, para que o cheiro, ainda em formação, seja só nosso e se dissipe depois de eternizar-se na nossa memória. Não diria isso aos incautos. Nem em sonhos lhe proporia tal desventura, se não estivesse certo que o maior castigo cairia sobre mim na mesma medida da felicidade.

Não aceite, se queres continuar sob a cortina da ignorância.
Pedi e nosso amigo disse:
Isso basta! Se não puderem agora, jamais poderão.

* Jaider Esbell, artista plástico, escritor, poeta e amigo confidente

 

 

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Feutmann deixou-nos milhares de fotos de todos os cantinhos do Tepequém, um dos seus grandes amores.
 

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