Tour por uma pequena vida brilhante

Tour por uma pequena vida brilhante

 

 

 

 

 

 

 

Esse era o cara!

Shirley Rodrigues*

Tive consciência de que estava diante de um ser especial desde a primeira vez que nossos caminhos se cruzaram. Nem lembro como, onde, quando, de tanto tempo que faz. Mas a "ficha só caiu"(em plena era digital), que Feutmann Gondim não era desse mundo, quando ele se foi.
Senão, como podia alguém tão jovem, tão simples, nascido e criado na Serra do Tepequém ter uma inteligência privilegiada daquelas, com conhecimentos tão profundos sobre qualquer assunto, além da postura impecavelmente elegante, que era sua marca registrada. Tinha a sensibilidade das crianças e a sabedoria dos anciãos e, assim, portava-se na vida pessoal e profissional, ambas norteadas pelo respeito e a louvável conduta de se igualar a qualquer pessoa, sem jamais ofender ou bajular quem quer que fosse por absolutamente nenhum motivo. Nada, por mais ultrajante que fosse, era capaz de abalá-lo ao ponto de tirá-lo do prumo. Quando se deparava com baixarias, sorria e dizia: "deixa pra lá". E era justamente isso que fazia, consciente de que aquilo não tinha nível sequer para atingi-lo, muito menos para merecer a perda do seu precioso tempo, que só era gasto com o trabalho ou na companhia dos familiares e amigos.
Durante os longos anos que tive o privilégio da convivência com ele (mais da metade da minha vida inteira), viajamos a muitos lugares – do Tepequém a Nova York – e, por onde passamos, parecia que ele conhecia cada local como a palma da sua própria mão. Sabia detalhes da história e da cultura de onde quer que andasse, desde a fundação aos tempos atuais; falava dos personagens importantes de cada lugar com tanta propriedade, que mais parecia ter convivido com eles. Adorava museus – seus preferidos eram o Metropolitan de Nova York e o Louvre de Paris – e sabia onde estava cada peça. Ficava extasiado diante delas e, enquanto as contemplava, contava como haviam sido feitas e tudo sobre a vida do autor, desde a infância à morte. Mas a paixão pela diversão era diretamente proporcional a sua intelectualidade.Nas viagens passava o dia nos Museus e pontos históricos e a noite nas baladas. Gostava de tudo, desde os clássicos musicais da Broadway, casas de Jazz e Blues, boates com música eletrônica, rave e até o forró do Carapanã na Serra do Tepequém.
Depois do segundo turno da campanha de 2010, fomos a Santa Elena de Uairén, fizemos compras e subimos a Serra do Tepequem, onde passamos o fim de semana. Foi lá que Feutmann me disse que estava decidido a voltar; nos seus planos, passaria a semana em Boa Vista, trabalhando no escritório de Ângela Portela e os fins de semana na pousada Lauro Gondim com sua família.Pretendia ir a Brasília umas duas vezes por mês; achava importante estar também perto da base política da senadora.
Quando voltamos pra Boa Vista, me ligou um dia, eufórico. Nos encontramos e me propôs o projeto do Site: shirleyrodrigues.com, que, a princípio, relutei. Porém, insistiu e, como tinha um poder de persuasão infalível, seus argumentos acabaram me convencendo. Em poucos dias, me apresentou o Denym Queiroz, a quem incumbiu de construir o site, e disse como seria; começou a discutir o projeto com Epitácio César, amigo de longa data, a quem admirava tanto, que dizia ser o único gênio vivo que ele conhecia.
Seu último Reveillon, passamos juntos na Pousada Lauro Gondim junto com sua família.Depois de darmos boas vindas a 2011, tomando Moët & Candon na virada do ano, fomos pro forró, onde só tinha cachaça, cerveja e a alegria daquele povo simples do interior. No mês seguinte, fui pra Londres e ele pra Brasília. De lá, falei com ele por telefone no dia da posse de Ângela Portela no Senado.Ele estava especialmente feliz e cheio de ideias. Em março, estávamos em Boa Vista para o casamento do irmão dele (Raustmann Gondim com Adriana Montanha) e demos continuidade ao projeto do site, sempre com Denym e Epitácio.Mesmo de Brasília, estávamos em contato praticamente todos os dias.
Em junho, ele veio no meu aniversário, como fazia todos os anos. Depois disso, veio mais duas vezes a Boa Vista; a última em novembro para o aniversário da irmã (Wagna, dia 20). Dessa vez, almoçamos juntos (no Peixe Mania, com Airtinho Ribeiro e Eliana Vianna). Mais uma vez, o nosso assunto era o site, que pelas contas dele já deveria estar no ar. Disse que ia rapidinho em Brasília e, na volta, resolveríamos tudo; estava planejando reunir todos os amigos na Serra do Tepequém para uma grande festa de Reveillon. Não deu tempo! Menos de um mês depois, seu corpo chegou a Boa Vista para o sepultamento, dia 18 de dezembro de 2011.
Até esse momento, não sei porque tive o merecimento de conviver com um ser tão maravilhosamente diferenciado, que passou em nossas vidas, veloz feito um meteoro, deixando um rastro de luz e saudade pelo caminho.
Pelo meu grande amor e de todos os amigos, que jamais deixarão de sentir sua falta, decidimos dar continuidade ao seu projeto do site shirleyrodrigues.com e, no local onde ele escreveria matérias especiais sobre turismo, natureza e meio ambiente, decidimos fazer este Memorial!
Saudade demais, meu irmão amado! 

 

*Shirley Rodrigues, que deu nome a este site é jornalista, colunista social do Jornal Folha de Boa Vista e a eterna amiga de Feutmann Gondim.

Com Sandra Franco Buenafuente, Chirth Peixoto e Nelson Amaro (ao fundo) na Calçada da Fama

 

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