Entre Parentes

Entre Parentes

Parece sem sentido o ato voluntário de escrever. Escrever a quem e para quê? Escrever aos parentes para falar de um mundo amplo, tão amplo que não cabe nos olhos vivos, languidamente desenhados, tristemente desviados. Escrever com gosto, com cheiro forte, sobre um diálogo apimentado em um espaço vasto, tão vasto que arrodeia toda a nossa existência e, se deixarmos, pode mesmo nos engolir como aquele peixe grande.

 

Entre índios e pokémon, o que fazer?

Eu sabia! Ou melhor, como bom índio, desconfiava! Vivemos em estado de lenda. Eu, aqui no nordeste brasileiro, entre milhares de bibliotecas físicas, vivas e digitais, estou vendo e vivendo tudo em ampliado, na prática. Gente convergindo, gente divergindo, um mix de poder e estratégia em políticas. Atualidades, muita tendência, fazeres milenares e um povo meio encantado. Para mim, o sentido de ir é por aqui, no meio desse cajueiral, fazendo sempre uma curva. Lendas e oportunidades, a vida única de cada um passando cruzada, mística, mestiça, sincrética. Perguntas, provocações, aversões, estranhamentos. Visões. Versos. Versões. Vazios. Ventanias. Visagens. Fantásticos, sagrados e fantasmagóricos. O meu retrato é: olho bem do alto, da dimensão do visível e das forças de luz do meu merecimento, respiro e, ao fazê-lo, de olhos fechados, vejo a cara da fé. A razão de meu ser nesta forma corpórea é a passagem; ouço gente dançando em ritual, tomando chá de raízes, incorporando, falando diretamente com eles, os invisíveis. As entidades, as forças, as culturas, os corpos, cabelos, rostos, o lugar metropolitano, ainda aldeia expandida entre realidade, fantasia e poluição. Na praia da índia Iracema, uma geração procura pokémon e o índio vê, e pode escolher caçar pokémon, sabendo naturalmente o caminho e a hora da fuga, do ataque, a hora do tempo contemplativo. Outra geração também vê isso sem muito saber o que acontece. Uma geração sem deuses. Outros deuses vão bem, outros nem tantos. A natureza avisa que vai levar tudo embora, e que ressurjam para o espetáculo final. Final para muitos, a primeira vez para outros. Índios remanescentes surgem em levantes, hoje, mais firmes e autoconfiantes, vigilantes, transitórios, procuram seus contatos e chegam à total transcendência. Ressuscitar é do homem.  Hoje, uma sociedade se olha e se enxerga com perplexidade e repulsa. Somos o que pudermos ter de entendimento, de convencimento, de conquista, pela fé, pela guerra e pela filosofia. Sincretismo lendário, atualíssimo, com um pouco de boa vontade e o mundo fluirá, respirará, gerará energia e vida. Mídias, tecnologias e, claro, a boa e velha ligação com a natureza plural, que precisa das folhas verdes, flores coloridas e água azul, para sempre. 

O amor e o temor à natureza

Somos só dois olhos a mais. Nossos ouvidos nos traem e nossa boca nos atira no mundo. Viemos lá de trás, criando limites, domando nossa impetuosidade. Paramos na fase homem, mas animal e espírito cabem igual dentro da gente e fazem da gente tudo e nada. O amor e o temor à natureza, o respeito e a transgressão. Aos que caem hoje no mundo, um lugar de cobras grandes, a regra valerá eternamente. Logo quando nascem as coisas, antes mesmo, em sua concepção, já tem predestino e astúcia pra dizer não e ser uma outra coisa. A natureza põe assim, tudo informado, tudo contido, mas salva no coração um lugar inatingível. Todo o mundo cabe ali e ainda pode ser mais fascinante, o seu ser. O ponto crucial do existir. Todas as noites, enquanto você dorme, sua alma passeia na imensidão. Vai longe, alto, profundo. Ela sai do seu corpo a buscar coisas pra te entreter. Hoje eu sonhei levitando. Uma força arrebatadora me alçou do chão e não teve mais gravidade. Sim, uma propulsão a sustentar meu corpo, sem peso. São tantos sonhos, tantos caminhos, pessoas do passado, amigos, assim nitidamente, e o futuro. Enquanto você dorme, tudo segue, as folhas crescem lá fora na madrugada, criando-se matéria, avançando no cinza morto, virando paisagem verde. Enquanto você dorme as estrelas caem, envelhecidas. Deslizam no céu e fazem luz no atrito veloz da matéria no ar leitoso. E o mundo passa, a dor nos gritos, a paz no vento. O mundo passa e suas mãos tocam a vida com sutileza. Vendo o tempo limpo, pode ser o horizonte vendo uma mulher serena, pode ser a grande mãe. Sangue e lágrima, outro tipo de amor para quem crê essas. Passagens são flores e, perfumadas, vão junto com as abelhas para dimensão onde estão os grandes favos de mel a jorrar.     

O COMEÇO E O MEIO ATÉ AQUI!

Antes, há muito tempo, Makunaima brincava sozinho; nesse tempo, ainda era criança. Depois, Makunaima cansou de brincar sozinho e quis ter filhos; assim, criou todas as tribos. As tribos vieram das formigas e tão numerosas quanto, se espalharam no terreiro. Então eles brincaram muito no terreiro, que era o lavrado, a planície, as serras e a grande floresta. Um dia, Makunaima subiu bem alto e de lá, viu gente diferente, cor de poeira. Makunaima desceu assustado e reunindo todo mundo falou: vem mais gente para brincar.

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A grande jornada­­­­­­

Quero um dia bom. Quero cavalos selados, Normandia. Que sejam fortes, selvagens e voluntários. Que sejam belos e jovens, com seus arreios finos. Quero cachorros campeiros; quero somente bons companheiros. Quero gente no ajuri, eu vou partir.

Não tenho um mapa, vamos seguir os antigos, olhar para as estrelas. Vamos andar nas terras de Makunaima. Vamos a pé, a cavalo, de canoa, no ar. Vamos visitar a vida, reascender a memória. Vamos fazer paixão, farinha no malocão. Vamos vibrar, despertar uma nação. Vamos dormir, acordar e dormir no paraíso, o pé do monte Roraima. Vamos levar a lenda à plena visão.

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Dever - o doce veneno de índio ser

Eu saio de casa mesmo que não seja uma oca tribal. Saio de casa mesmo não sendo uma oca. Vou dirigindo meu próprio carro. Não, não sou só mais um no trânsito, sou mais um índio motorizado a atrapalhar o desenvolvimento. Já que dizem ser o índio o entrave. Mesmo não sendo branco, eu vim registrar uns papeis. Mesmo não sendo branco, vim buscar o meu certificado. Mesmo não sendo branco, sou capaz de votar. Mesmo não sendo branco, tenho a capacidade de governar. Você algum dia já me perguntou o que eu sinto, o que eu quero e como quero? E para o povo? Eu sei que não aceitamos muitas coisas, mas nem por isso matamos, nem por isso negamos diálogo. Eu vivo além do que se espera, faço muito mais que cuidar das terras da união. Eu tenho saberes únicos, de valor universal. Eu tenho sim que reconhecer que nada será como antes. Eu vejo e explico, parentes são mesmo assim; têm querer, têm poder e tem quem siga seu próprio rumo, por mais condenável que se julgue ser. Tem índio de todo jeito. Sinto muito em lhe dizer, mas nossas frustrações se cruzam no mesmo caminho e logo adiante acabamos frente a frente. Seguiremos agarrando as coisas uns dos outros, seguindo nos caminhos já percorridos, apagando os rastros, desmontando as coisas. Uma mescla resistida e maliciosamente concebida. Há uma dor na alma, bem maior que as dores que o corpo sente. Dor da alma, o equilíbrio das forças, mais perto dos espíritos. Aos nossos pés a natureza se cansa. Não temos mesmo olhado para os animais. Para as plantas como plantas, para o rio como rio.  Nossos ethos se alinham e pode mesmo a ignorância acelerar o final. Podia ser diferente, sem humilhar, sem sentir no dever o doce veneno de índio ser.  

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