Entre Parentes

O amor e o temor à natureza

Somos só dois olhos a mais. Nossos ouvidos nos traem e nossa boca nos atira no mundo. Viemos lá de trás, criando limites, domando nossa impetuosidade. Paramos na fase homem, mas animal e espírito cabem igual dentro da gente e fazem da gente tudo e nada. O amor e o temor à natureza, o respeito e a transgressão. Aos que caem hoje no mundo, um lugar de cobras grandes, a regra valerá eternamente. Logo quando nascem as coisas, antes mesmo, em sua concepção, já tem predestino e astúcia pra dizer não e ser uma outra coisa. A natureza põe assim, tudo informado, tudo contido, mas salva no coração um lugar inatingível. Todo o mundo cabe ali e ainda pode ser mais fascinante, o seu ser. O ponto crucial do existir. Todas as noites, enquanto você dorme, sua alma passeia na imensidão. Vai longe, alto, profundo. Ela sai do seu corpo a buscar coisas pra te entreter. Hoje eu sonhei levitando. Uma força arrebatadora me alçou do chão e não teve mais gravidade. Sim, uma propulsão a sustentar meu corpo, sem peso. São tantos sonhos, tantos caminhos, pessoas do passado, amigos, assim nitidamente, e o futuro. Enquanto você dorme, tudo segue, as folhas crescem lá fora na madrugada, criando-se matéria, avançando no cinza morto, virando paisagem verde. Enquanto você dorme as estrelas caem, envelhecidas. Deslizam no céu e fazem luz no atrito veloz da matéria no ar leitoso. E o mundo passa, a dor nos gritos, a paz no vento. O mundo passa e suas mãos tocam a vida com sutileza. Vendo o tempo limpo, pode ser o horizonte vendo uma mulher serena, pode ser a grande mãe. Sangue e lágrima, outro tipo de amor para quem crê essas. Passagens são flores e, perfumadas, vão junto com as abelhas para dimensão onde estão os grandes favos de mel a jorrar.     

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